O fundamento antropológico das obras de misericórdia corporais e espirituais

«O fundamento antropológico das obras de misericórdia corporais e espirituais»

 José Enrique Sobrero Bosch sdb

Introdução

O tema envolvente neste ano Jubilar é a Misericórdia, também para os filósofos.

A partir dessa premissa maior (maior porque é uma realidade de sentido muito grande), seria interessante construir alguma resposta filosófica. A minha proposta é: «O fundamento antropológico das obras de misericórdia corporais e espirituais».

Onde é que estão explicadas as obras de misericórdia no conteúdo do Catecismo da Igreja Católica? Na TERCEIRA PARTE «A VIDA EM CRISTO», na SEGUNDA SECÇÃO «OS DEZ MANDAMENTOS», no CAPÍTULO SEGUNDO «AMARÁS O TEU PRÓXIMO COMO A TI MESMO» (Jesus disse aos discípulos: «Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei» Jo 13, 34), no ARTIGO 7 «O SÉTIMO MANDAMENTO» («Não furtarás» (Ex 20, 15);  «Não roubarás» (Mt 19, 18).

 As obras de misericórdia são as ações caridosas pelas quais vamos em ajuda do nosso próximo, nas suas necessidades corporais e espirituais (Cf. Is 58, 6-7; Heb 13, 3). Instruir, aconselhar, consolar, confortar, são obras de misericórdia espirituais, como perdoar e suportar com paciência. As obras de misericórdia corporais consistem nomeadamente em dar de comer a quem tem fome, albergar quem não tem teto, vestir os nus, visitar os doentes e os presos, sepultar os mortos (Cf. Mt 25, 31-46). Entre estes gestos, a esmola dada aos pobres (Cf. Tb 4, 5-11; Sir 17, 18) é um dos principais testemunhos da caridade fraterna e também uma prática de justiça que agrada a Deus (Cf. Mt 6, 2-4):

«Quem tem duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma, e quem tem mantimentos, faça o mesmo» (Lc 3, 11). «Dai antes de esmola do que possuis, e tudo para vós ficará limpo» (Lc 11, 41). «Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem do alimento quotidiano, e um de vós lhe disser: “Ide em paz; tratai de vos aquecer e de matar a fome”, mas não lhes der o que é necessário para o corpo, de que lhes aproveitará?» (Tg 2, 15-16) (Cf. 1 Jo 3, 17).

Comecei esta reflexão citando o Catecismo da Igreja Católica através duma pergunta: Onde é que estão explicadas as obras de misericórdia no conteúdo do Catecismo da Igreja Católica? Porque na vida filosófica prática e concreta do dia-a-dia tentamos explicar o procedimento deste acontecer para entendê-lo, e encontrar um sentido na vida, alicerçando com princípios sólidos a nossa caminhada.

Qual é o significado de «necessidade corporal e espiritual»?

O que é que necessita o corpo, o que é que necessita a alma?

São necessidades diferentes ou estão implicadas no mesmo ser?

A materia-corpo e o espírito-alma. Então, estaremos assistindo um discurso de René Descartes sobre o dualismo alma-corpo?

Não é esta a minha intenção nem o argumento fundamental desta conversação.

O dualismo cartesiano abre as portas da separação alma-corpo. O nosso argumento está baseado na união substancial alma-corpo. Evitamos a polemica meditando na unidade do ser humano, uma unidade substancial que nos permite considerar ao homem na sua integridade essencial.

A questão colocada no coração das obras de misericórdia leva o nosso olhar para o fundamento do ato caridoso, que Deus inspira ao homem[1], mas que o homem realiza na ação concreta de instruir, aconselhar, consolar, confortar, perdoar, suportar com paciência, dar de comer a quem tem fome, albergar quem não tem teto, vestir os nus, visitar os doentes e os presos, sepultar os mortos. É uma lista concreta e comprometedora, sem abstrações nem jogos da lógica. Sem especulações nem cálculos científicos. Sem um espiritualismo vazio nem um materialismo que escraviza e condiciona.

O ser humano está aí. E o ato de amor em obras também está aí. Porque é um ato do homem.

Qual é, então, o fundamento antropológico das obras de misericórdia?

As obras de misericórdia representam um movimento de saída para o exterior, para o outro, para o distinto do próprio ser. É o homem que reconhece ao outro, reconhece sua necessidade e concretiza um ato caridoso.

Daí que o ícone deste Ano da Misericórdia seja o Bom Pastor que carrega não só a ovelha, senão ao mesmo ser humano (cfr. Logotipo do Ano Santo da Misericórdia):

O logotipo e o lema colocados juntos oferecem uma feliz síntese do Ano jubilar. O lema Misericordiosos como o Pai (retirado do Evangelho de Lucas, 6,36) propõe viver a misericórdia no exemplo do Pai que pede para não julgar e não condenar, mas perdoar e dar amor e perdão sem medida (cfr. Lc 6,37-38). O logotipo – obra do Padre jesuíta Marko I. Rupnik – apresenta-se como uma pequena suma teológica do tema da misericórdia. Mostra, na verdade, o Filho que carrega aos seus ombros o homem perdido, recuperando uma imagem muito querida da Igreja primitiva, porque indica o amor de Cristo que realiza o mistério da sua encarnação com a redenção. O desenho é feito de tal forma que realça o Bom Pastor que toca profundamente a carne do homem, e o faz com tal amor capaz de lhe mudar a vida. Além disso, um detalhe não é esquecido: o Bom Pastor com extrema misericórdia carrega sobre si a humanidade, mas os seus olhos confundem-se com os do homem. Cristo vê com os olhos de Adão e este com os olhos de Cristo. Cada homem descobre assim em Cristo, novo Adão, a própria humanidade e o futuro que o espera, contemplando no Seu olhar o amor do Pai.

A cena é colocada dentro da amêndoa, também esta figura cara da iconografia antiga e medieval que recorda a presença das duas naturezas, divina e humana, em Cristo. As três ovais concêntricas, de cor progressivamente mais clara para o exterior, sugerem o movimento de Cristo que conduz o homem para fora da noite do pecado e da morte. Por outro lado, a profundidade da cor mais escura também sugere o mistério do amor do Pai que tudo perdoa.

Por isso, nesta meditação feita no âmbito filosófico num ambiente de partilha proponho dois pontos:

Primeiro, falar da unidade substancial alma-corpo.

Segundo, explicitar as obras de misericórdia corporais e espirituais.

  1. União substancial

Afirma Joseph Ratzinger, em Sacramentum Mundi, volume 4, pág.399 :

“… toda declaração sobre corpo e alma… visa sempre ao homem uno, mas dentro de seu estado interiormente diferenciado de um princípio de ser espiritual e material, isto quer dizer de um ser que participa igualmente da dimensão espiritual e da dimensão de espaço e tempo. – As duas afirmações não podem se referir a dois seres distintos, mas também não podem ser simplesmente identificadas. Isso vale também no que diz respeito à declaração sobre plenificação de alma e corpo. A expressão que fala de um estado intermediário de alma sem corpo, ‘antes’ da ressurreição do corpo, não quer fixar nada, além da diferenciação necessária das duas afirmações. Só em conjunto elas realmente definem o ser do homem e sua plenificação.”

O ser humano é um ser corporal e também espiritual. O ser humano é uma pessoa espiritual porque seu corpo é animado por um principio de vida espiritual chamado alma. O corpo humano (material) unido à alma humana (espiritual) formam uma só natureza humana. A alma é criada por Deus no exato momento da concepção humana. O ser humano considerado em forma integral (corpo e alma) surge no momento da concepção pelos pais biológicos.

O ser humano só existe em sua integralidade, isto é, um elemento sem os demais não representa o ser humano integral.

Todo nosso ser, nosso intelecto, nossa vontade, nossas emoções, nossa intuição, são todos envolvidos em nosso conhecimento de Deus, nas nossas relações com os outros seres, no lugar que ocupamos no mundo.

Por exemplo, Deus não se relaciona com o ser humano em termos fragmentados mas com o ser humano inteiro. O mesmo acontece com as relações inter-pessoais. As dificuldades da fragmentação surgem da separação corpo-alma. Viver fragmentados é renunciar à unidade substancial dos compoentes espiritual e material. Note-se aqui que a fragmentação é uma opção unilateral, seja do espírito como da matéria. Neste ambiente fragmentado manifesta-se com muita força o relativismo, que hoje ocupa e preocupa a vida das pessoas.

São Tomás de Aquino introduz seu tratado sobre o «homem» no início da questão 75 na Primeira parte da Suma Teológica. Na primeira parte deste tratado sobre o homem aborda-se aquilo que o homem é em virtude unicamente de sua natureza, fazendo uma abstração quase total da graça. Isto é importante sublinhá-lo na primeira parte da Suma Teológica porque é uma referência de sabor filosófico, porém, da nossa conveniência. Esta referência tem um nome: Aristóteles. Contudo, estas primeiras lições sobre o homem abordarão a dimensão do pensamento humano, reservando a explicação afetiva e volitiva na Segunda Parte da Suma.

 

Considerarei na minha primeira parte a explicação sapiencial de São Tomás de Aquino, na questão 76, A união da alma com o corpo, artículo 1 (esta questão está tratada em 8 artigos) da Suma Teológica. É uma análise lúcida e clara da subsistência e da espiritualidade da alma unida ao corpo, estabelecendo uma relação causal, pois a alma exerce como ato de um corpo vivo. O eixo da solução tomista encontra-se no artigo 1: com a afirmação da alma como ato formal ou forma substancial do corpo, São Tomás defende a espiritualidade e a corporalidade essenciais do ser humano e sua unidade, enfrentando-se já no seu tempo aos materialismos, aos espiritualismos exagerados, aos dualismos psicológicos e aos paralelismos ocasionalistas ou psico-fisiológicos. Argumenta de modo direto contra a concepção platónica da alma como motor do corpo e das três almas no homem, contra a posição agostiniana medieval da multiplicidade das formas substanciais e contra o monopsiquismo averroísta. Todas estas questões controvertidas não serão analisadas aqui, mas que fique claro o argumento de Tomás no confronto e no diálogo com outros autores.

 

Tambén, nesta linha, São Tomás de Aquino se coloca frente à psicologia de Averróis (1126-1198) e à concepção de um único intelecto agente (universal) para todos os homens, o que tornaria as faculdades do indivíduo humano apenas um instrumento de apreensão das ideias “que pairam” e não a potência para o ato de reflexão individual. O homem seria objeto de conhecimento e não o próprio cognoscente.

 

A antropologia Tomista preserva a noção tradicional da alma concebida como uma substância espiritual (Platão e Agostinho), que é a forma do corpo (Aristóteles). Sendo a alma um princípio subsistente, isto é, uma substância que pode ter o ser por si, exerce a função de forma substancial ao comunicar este ato de ser, que é o âmago de toda a sua substância, a matéria primeira. Por isso, a potência da matéria é exatamente sua essência, ou seja, o corpo tem a alma na qualidade de princípio.

 

Através desta unidade substancial, o corpo não é sombra, mas espelho da alma, pois reflete seu estado interior. O corpo não é apenas matéria, mas potência para que se transformem as privações em novos atos de ser. Sua unidade não é o fardo do pecado original, mas o mistério da sua redenção (isto no plano teológico). Contudo, para nós que meditamos filosoficamente sobre as obras de misericórdia, esta apreciação teológica é riquíssima em conteúdos pois nos facilita a explicação dos novos atos de ser, atos de caridade no caso concreto das obras de misericórdia.

 

Para Tomás de Aquino, a alma humana é uma forma simples, não se compõe de matéria e forma, mas há nela composição de ato e potência. A alma humana seria o último grau numa hierarquia descendente dessas formas simples. Na sua doutrina, a noção de substância espiritual ou de substância intelectual aplica-se tanto à alma humana como aos anjos. Estes são substâncias superiores, totalmente separados do corpo, imateriais e recebem sua perfeição inteligível de Deus, enquanto as almas humanas são substâncias espirituais inferiores e possuem o ser ligado ao corpo e, por meio deste, recebem o inteligível.

 

Na doutrina do Aquinate, a linha divisória entre Deus e os outros entes é a composição entre essência e existência. Todos os entes, com exceção de Deus, têm a sua essência distinta do seu ato de ser, nos entes nada é mais perfeito do que o próprio ato pelo qual são, este é uma dádiva divina. Somente em Deus, puro ato, o ser, a essência e o ato de ser coincidem. Segundo Tomás de Aquino, Deus é a fonte doadora do ser ou da vida da alma e este é o princípio de unidade e existência do homem. O ser é aquilo que há de mais íntimo em cada coisa e o que mais profundamente está inserido em todos os entes. Para tal, é preciso fazer a distinção para entender o ser: ser em potência e ser em ato. Como afirma Tomás de Aquino, “o ser é a atualidade de toda a forma ou natureza; só se podem dar, em ato, bondade ou humanidade enquanto se dão ser. Daí, necessariamente, o ser esteja para a essência como o ato para a potência”[2].

 

Ora, na constituição do homem, o corpo se comporta como matéria e a alma, como forma. A virtude implica uma perfeição da potência. Há dois tipos de potência: potência para existir e potência para agir. A potência para existir fundamenta-se na matéria, que é ente em potência, ao passo que a potência para agir fundamenta-se na forma, que é princípio de ação, porque cada uma age na medida em que está em ato por isso é que a virtude humana de que estamos tratando não pode pertencer ao corpo, mas só ao que é próprio da alma. Assim, a virtude humana não implica uma ordenação para existir, mas antes para a ação[3].

 

A essência é apenas o limite no particular e está diretamente envolvida no ato de ser. Ela não é existência, mas é aquilo cuja natureza é ter existência. Para Tomás de Aquino, a essência é vista como passível de compreensão e definição, suas propriedades são inteligíveis. A essência é a medida da recepção do ato de ser. Nesse caso, na dialética entre a coisa e sua essência, a forma e a matéria se unem em um ato de existência, num organismo vivente, no ato de existir.

 

A exposição Tomista na qual a potência é apenas uma modalidade imperfeita do ato torna possível compreender os seres em seu devir e a determinação do humano a partir do seu livre arbítrio e de seu fazer-se. Compreender seus atos é compreender suas privações, ou seja, o que falta à natureza ou essência do seu ser. A forma é, pois, um ato. A forma da substância é o ato constitutivo da substância em si. Por isso é denominada de forma substancial. Uma vez constituída pela união da forma com a matéria, a substância se apresenta, como estando em potência para determinações futuras. A substância tomada em potência com respeito a essas determinações recebe o nome do sujeito, e suas futuras determinações se denominam de acidentes.

 

Este princípio pelo qual vivemos, sentimos e conhecemos só se revela por suas operações. Para a alma se conhecer, assim como as disposições que estão nela, seja por sua essência, seja por seus atos, o homem passa necessariamente pela consciência da realidade material concreta. A alma humana, como substância, tanto em seu ser como em suas operações, se une ao corpo como forma e, assim, confere ao homem sua vida vegetativa, sensitiva e intelectiva. A alma, como ato primeiro, faz ser; assim, por esse ato primeiro, o vivente pode exercer seus atos segundos, como as funções vitais e as potencialidades operativas. Os modos de vida são fundamentais para a compreensão dos diferentes graus de perfeição. Essencial é o reconhecimento das inter-relações dos reinos na natureza, onde o que é próprio do inferior preexiste de modo mais perfeito no superior.

 

Para tal, na observação do reino vegetal, onde a forma e o fim pelo qual agem lhes foram determinados pela natureza, é visível que o nosso organismo compartilha o nascer, nutrir, crescer, gerar e perecer. Esse princípio confere as funções vitais constitutivas do organismo no homem e de suas atividades para conservação da vida.

 

Com o reino animal, que não determina para si o fim de suas operações, instintos e movimentos, nos é comum a vida sensorial, que se relaciona principalmente a três gêneros de faculdade: o apetite sensível, as potências motoras e o conhecimento sensível.

 

No ser humano encontra-se um grau superior de vida, a intelectiva, em unidade de funcionamento junto aos dois princípios essencias: as funções vegetativas dão substrato fisiológico para a vida das potências sensíveis, como por exemplo, os órgãos dos sentidos que nos possibilitam apreender os diferentes dados sensíveis necessários para as potências intelectivas. Esse grau de vida, a vida intelectiva, é o mais elevado. Sua emanação própria, embora tenha origem no exterior, se dirige ao interior, permite-nos refletir sobre esses dados apreendidos e, assim, constituir o conhecimento da realidade. Tudo isto é feito pela abstração.

 

A realidade humana é realidade essencialmente composta, formada de dois elementos, um material e um espiritual.

 

A somaticidade (em relação ao corpo) é um dado primário do ser humano, tanto direta quanto indiretamente, fazendo parte de todas as operações humanas (do viver como do sentir, do ver como do desejar, do falar como do trabalhar, etc.). E, portanto, impossível conceber o ser humano sem o elemento corpóreo. Sem ele, muitas operações tipicamente humanas como o falar e o brincar, o trabalhar e o dançar não poderiam existir. A própria vida social seria impossível.

 

O corpo permanece, portanto, realidade sólida, real, essencial no caso do ser humano. Isso nos autoriza a concluir que se o ser humano é substância, o corpo é constitutivo essencial dessa substância. Por conseguinte, a alma não pode ser identificada com o ser do ser humano. Somente junto com o corpo ela dá origem àquela substância completa que é o ser humano.

 

Mas, estando assim as coisas, a que se reduz a substancialidade da alma? Não se resolve também ela em substancialidade cortada ao meio e incapaz de se reger a si mesma como acontece com a substancialidade do corpo? Essa parece ser a solução mais óbvia. Com efeito, se o ser humano é resultado da união profunda, substancial da alma com o corpo, a lógica parece sugerir que, como não há substancialidade própria, autónoma para o corpo, assim não deveria haver também para a alma. E, no entanto, essa é uma conclusão necessária, porque a situação ontológica da alma não é idêntica à do corpo. Por qual motivo? A razão é tirada da natureza espiritual da alma.

 

A autotranscendência é o indício claro da presença no ser humano de elemento espiritual, a alma. Essa é realidade intrinsecamente espiritual, ou seja, intrinsecamente independente da matéria. Ora, o que significa isso senão que a alma não pode receber o ser do corpo, porque esse é de género e natureza totalmente diversos? Mas, de outro lado, não é igualmente evidente que a alma não pode receber o ser do ser humano, dado que sem a alma o ser humano não existe ainda?

 

É necessário, portanto, concluir que, graças à sua transcendência e espiritualidade, a alma tem o ser como sua propriedade imediata, sem o subsídio do corpo. Diz bem Tomás de Aquino: “A alma é dotada de modo de agir todo seu; por esse motivo, goza também de ato próprio de ser”.

 

Por essa razão, estando de posse de ato próprio de ser e não tendo necessidade de inserir-se em outra substância para subsistir, a alma tem todos os requisitos necessários e suficientes para ser considerada substância por conta própria. Com efeito, ela desenvolve todas as funções principais da substância: tem certa autonomia, solidez, permanência, identidade, é causa de certas operações e é sujeito de certas atribuições.

 

Porém, é substância completa excecional. De facto, enquanto as outras substâncias completas formam cada uma por conta própria uma espécie ou então um indivíduo de dada espécie, a alma de per si não está em condições de constituir uma espécie, mas somente em união com o corpo, já que existe a espécie ser humano, mas não existe a espécie alma.

 

Esta singular conceição da substancialidade da alma tem o mérito de solucionar o erro de Platão e dos seus seguidores (os quais consideravam a alma e o corpo como duas substâncias completas por conta própria, reunidas de maneira acidental e casual, como o cavaleiro ao cavalo, ou o timoneiro à nave) e de salvaguardar a unidade do ser do homem. De facto, na nossa conceição não se atribui um ato de ser ao corpo e outro ato de ser à alma (como fazem Platão e os seus seguidores). O ato de ser é um só, o da alma, a qual desde o primeiro instante do seu existir dele faz participar também o corpo. Desde esse momento, tem-se a realidade completa (tanto como substância quanto como espécie) que se chama homem.

 

Do que acabamos de dizer torna-se claro que a alma tem prioridade ontológica mas não cronológica, com relação ao corpo. Pelo contrário, cronologicamente a matéria de que se forma o corpo precede a alma. Porém essa matéria torna-se corpo humano apenas no instante em que começa a existir a alma: graças ao seu ato de ser adquire consistência e autonomia também o corpo.

 

Esta consideração metafísica é o primeiro passo que podemos dar na compreensão da união da alma com o corpo. Assim estabelecida esta união podemos distinguir com clareza as dimensões corporal e espiritual que identificam a ação caridosa nas obras de misericórdia. É o que pretendemos fazer nesta segunda parte da exposição.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  1. Obras de misericórdia corporais e espirituais

 

  1. As 14 Obras da Misericórdia

 

Obras Corporais:

1ª Dar de comer a quem tem fome;

2ª Dar de beber a quem tem sede;

3ª Vestir os nus;

4ª Dar pousada aos peregrinos;

5ª Assistir aos enfermos;

6ª Visitar os presos;

7ª Enterrar os mortos.

 

Obras Espirituais:

1ª Dar bons conselhos;

2ª Ensinar os ignorantes

3ª Corrigir os que erram;

4ª Consolar os tristes;

5ª Perdoar as injúrias;

6ª Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo;

7ª Rogar a Deus por vivos e defuntos.

 

As catorze ações caridosas estão direcionadas por um elemento em comum: a necessidade do ser humano.

 

A exposição metafísica de São Tomás de Aquino ajuda-nos a considerar ao homem na unidade substancial. Este ser humano tem necessidades corporais e espirituais. Já no Evangelho encontramos nas palavras de Jesus um sentido das obras de misericórdia corporais quando expõe as condições nas quais seremos julgados. Em realidade é só um critério que se utiliza no juízo final: a misericórdia pessoal que praticamos durante nossa vida.

 

Mas não pensemos que esta necessidade material de comida, bebida, vestido, casa, doença, falta de liberdade, morte, sejam circunstâncias passageiras que possibilitam aos batizados a prática das boas obras. Existe, porém uma dimensão espiritual virada na preocupação da qualidade intelectual, sentimental e volitiva: aconselhar, ensinar, corrigir, consolar, perdoar, sofrer e rogar são os caminhos que parecem ocultos trás a verdadeira preocupação pela totalidade do ser humano.

 

É assim que consideramos a unidade do homem: preocupados pelo corpo e pela alma, preocupados pelo homem na sua totalidade.

 

Podemos ficar estagnados pela miséria humana quando a carne sofre, como se fosse uma questão que não tem solução. Daí que a misericórdia que devemos praticar não se reduz a um auxílio corporal ou material, mais efetivamente num movimento que abrange ao ser humano na sua totalidade.

 

Caminhar nesta senda tem um selo metafísico, pois a alma humana está envolvida e preocupada nas necessidades do cada homem.

 

  1. Novo humanismo

 

De que maneira podemos os filósofos praticar as obras de misericórdia? Existe só uma forma de viver as obras de misericórdia manifestada na forma de ser cristão?

 

Todo batizado está envolvido nestas práticas caridosas. “Jesus Cristo é a misericórdia divina em pessoa – lembra-nos o Papa Bento XVI no começo do seu pontificado -: encontrar Cristo significa encontrar a misericórdia de Deus. A misericórdia de Cristo não é uma graça a bom preço, não supõe a banalização do mal. Cristo leva no seu corpo e na sua alma todo o peso do mal, toda a sua força destruidora. Ele queima e transforma o mal no sofrimento, no fogo do seu amor sofredor. Quanto mais formos tocados pela misericórdia do Senhor tanto mais entramos em solidariedade com o seu sofrimento, tornamo-nos disponíveis para completar na nossa carne o que falta aos padecimentos de Cristo”.

 

Para nós, que tentamos uma e outra vez explicar esta realidade complexa para poder entendê-la, existem também algumas possibilidades concretas de praticar a misericórdia.

 

Efetivamente, sublinharei três atitudes tiradas do prolífico Magistério do Papa Bento XVI na linha filosófico-metafísica:

 

A primeira atitude refere-se à unidade do conhecimento radicado na verdade. Isto possui uma advertência na misericórdia para uma atenta reflexão ao conteúdo que partilhamos nas instituções académicas. Qual é a herança da «filosofia perenne» que praticamos, seja quando recebemos ou quano damos conhecimentos verdadeiros? Caimos facilmente na materialidade duma lei ou dum preceito que muitas vezes afasta o nosso olhar na formação integral da pessoa humana.

 

Afirma o Papa numa visita em Praga: «Há que ser reconquistada a ideia de uma formação integral, baseada sobre a unidade do conhecimento radicado na verdade. Isto pode contrastar a tendência, tão evidente na sociedade contemporânea, para uma fragmentação do saber. Com o crescimento maciço da informação e da tecnologia nasce a tentação de separar a razão da busca da verdade. Mas a razão, quando é separada da orientação humana fundamental para a verdade, começa a perder a própria direcção. Ela acaba por se tornar insensível sob a aparência de modéstia, quando se contenta com o que é puramente parcial ou provisório, ou sob a aparência de certeza, quando impõe a capitulação às exigências de quantos dão de maneira indiscriminada igual valor praticamente a tudo. O relativismo que deriva disto gera um disfarce, por detrás do qual podem esconder-se novas ameaças à autonomia das instituições académicas»[4].

 

A segunda atitude fixa a atenção no exemplo de Santo Agostinho. Na figura completa de Santo Agostinho achamos um filósofo e teólogo da misericórdia que hoje podemos imitar. O Papa Bento XVI, grande conhecedor de Agostinho tem páginas estupendas que descrevem esta pessoa consagrada à verdade. Citarei um resumo, pronunciado por Bento XVI no ano 2007. Mas antes gostaria partilhar um detalhe que quiçã muitos não conheçam em forma direta: Bento XVI como colaborador da verdade. Diz assim um rasgo da sua biografia:

Em 25 de Março de 1977, o Papa Paulo VI nomeou-o Arcebispo de München e Freising. A 28 de Maio seguinte, recebeu a sagração episcopal. Foi o primeiro sacerdote diocesano, depois de oitenta anos, que assumiu o governo pastoral da grande arquidiocese bávara. Escolheu como lema episcopal: «Colaborador da verdade»; assim o explicou ele mesmo: «Parecia-me, por um lado, encontrar nele a ligação entre a tarefa anterior de professor e a minha nova missão; o que estava em jogo, e continua a estar – embora com modalidades diferentes –, é seguir a verdade, estar ao seu serviço. E, por outro, escolhi este lema porque, no mundo actual, omite-se quase totalmente o tema da verdade, parecendo algo demasiado grande para o homem; e, todavia, tudo se desmorona se falta a verdade».

 

 

Vemos agora as palavras do Papa Bento XVI sobre Agostinho de Hipona: «O percurso existencial e intelectual de Agostinho testemunha a fecunda interacção entre fé e cultura. Santo Agostinho era um homem animado por um desejo incansável de encontrar a verdade, de encontrar o que é a vida, de saber como viver, de conhecer o homem. E precisamente devido à sua paixão pelo homem necessariamente procurou Deus, porque só na luz de Deus também a grandeza do homem, a beleza da aventura de ser homem, pode sobressair plenamente. Este Deus inicialmente parecia-lhe muito distante. Depois encontrou-o: este Deus grande, inacessível, fez-se próximo, fez-se um de nós. O grande Deus é o nosso Deus, é um Deus com um rosto humano. Assim a fé em Cristo não pôs fim à sua filosofia, à sua audácia intelectual, mas, ao contrário, estimulou-o ulteriormente a procurar as profundezas do ser homem e a ajudar os outros a viver bem, a encontrar a vida, a arte de viver. Isto era para ele a filosofia: saber viver, com toda a razão, com toda a profundidade do nosso pensamento, da nossa vontade, e deixar-se guiar pelo caminho da verdade, que é um caminho de coragem, de humildade, de purificação permanente. A fé em Cristo deu cumprimento a toda a pesquisa de Agostinho. Cumprimento, todavia, no sentido que ele permaneceu sempre a caminho. Aliás, diz-nos: também na eternidade a nossa busca não terá terminado, será uma aventura eterna descobrir novas grandezas, novas belezas. Ele interpretou a palavra do Salmo “procurai sempre o seu rosto” e disse: isto é válido para a eternidade; e a beleza da eternidade consiste no facto de ela não ser uma realidade estática, mas um progresso imenso na beleza imensa de Deus. Assim podia encontrar Deus como a razão fundante, mas também como o amor que nos abraça, nos guia e dá sentido à história e à nossa vida pessoal»[5].

 

E porfim na terceira atitude falamos da caridade intelectual.

 

«Como podem responder os pensadores cristãos perante o relativismo?“. Estes perigosos desenvolvimentos põem em evidência a urgência particular daquilo a que poderíamos chamar “caridade intelectual”. Este aspecto da caridade exige que o pensador seja um verdadeiro educador reconhecendo que ele tem uma profunda responsabilidade de guiar os jovens à verdade, e esta é unicamente um acto de amor. Na realidade, a dignidade da educação reside na promoção da verdadeira perfeição e a alegria de quantos devem ser guiados. Na prática, a “caridade intelectual” apoia a essencial unidade do conhecimento contra a fragmentação que deriva quando a razão está separada da perseguição da verdade. Isto guia os jovens para a profunda satisfação de exercer a liberdade em relação à verdade, e leva a formular a relação entre a fé e os vários aspectos da vida familiar e civil. Quando a paixão pela plenitude e pela unidade da verdade for despertada, os jovens certamente apreciarão a descoberta que a questão sobre o que eles podem conhecer os abre para a vasta aventura do que eles deveriam fazer. Então eles experimentarão “em quem” e “no que” é possível esperar e sentir-se-ão inspirados a dar a sua contribuição à sociedade de uma forma que gera esperança nos outros»[6].

 

Neste Ano Santo da Misericórdia, agradeço a cada um dos presentes de ter praticado uma obra de misericórdia para comigo suportando com paciência estes argumentos metafísicos e existencias.

 

Termino com uma proposta comunitária: fazer a peregrinação da comunidade educativa do ISDB na Porta Santa do Santuário ao Sagrado Coração de Jesus no Mostéiro das Pobres Irmãs Clarissas de Palanca.

 

Muito obrigado!

 

ISDB, Semana Filosófica, 12 de Maio de 2016.-

 

[1] Falando no âmbito eclesial, pois as «obras de misericórdia» é uma prática que a Igreja desde os primeiros séculos propõe aos batizados. De inspiração evangélica e de praxis humana, estas obras não esquecem o realismo do sujeito «necessitado». Aqui também deveriamos considerar o conceito de «proximo» tão habilmente desenvolvido por Jesus na parábola do Bom Samaritano. É na Igreja Católica que vem oferecida esta lista de obras concretas. Sugiro a leitura da catequese do Papa Francisco na quarta-feira 27 de Abril de 2016 na Praça São Pedro no Vaticano, explicando e aplicando a parábola supracitada.

[2] AQUINO, ST.I, q.3, a.4.

[3] AQUINO, ST, Iª, IIª.

[4] BENTO XVI, Discurso no encontro com o mundo académico no salão de Vladislav do Castelo de Praga, 27 de Setembro de 2009, Livraria Vaticana, 2009.

[5] BENTO XVI, Discurso durante o encontro com a comunidade da Universidade de Pavia, 22 e Abril de 2007, Livraria Vaticana, 2007.

[6] BENTO XVI, Discurso na Sede da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Educadores Católicos. Nova Iorque, 17 de Abril de 2008, Livraria Vaticana, 2008.